Fechada desde que a JAE ali se instalou nos anos 40, a Quinta Nova tornou-se, há cerca de dois anos, um espaço de lazer apreciado por praticantes de jogging e caminhada. A reivindicação da abertura dos seus portões, na zona fronteira à entrada do Palácio de Queluz, foi apoiada pela junta de freguesia local e pela Câmara de Sintra - tendo esta chegado a defender, em 2006, a ligação, através de uma nova passagem pedonal sobre o IC19, entre a quinta e a mata da Matinha, nas traseiras do palácio.
A EP acabou por ceder à pressão e o espaço foi aberto, até que este fim- -de-semana os portões se voltaram a fechar, reabrindo durante a semana. A EP diz que nada sabe quanto ao futuro e que as condições de acesso à propriedade vão passar a ser da responsabilidade da Direcção-Geral do Tesouro e Finanças. A Quinta Nova é atravessada por uma ribeira de água limpa onde abundam pássaros e patos, e possui duas zonas distintas entre a sua entrada e a outra extremidade, junto à estrada que liga a Amadora ao Hospital Fernando Fonseca. Uma é ocupada por uma mata densa, cruzada por caminhos de terra batida e composta por espécies arbóreas de grande porte, com destaque para pinheiros e sobreiros, além de grande variedade de arbustos. A outra, correspondente a uma vasta zona de antigas hortas onde avulta um imponente e centenário miradouro encostado ao IC19, dispõe de um complexo sistema de rega bastante degradado, assente em dois tanques de pedra de grandes dimensões e num aqueduto de arcos que transporta a água das minas na mata. Nas últimas décadas foi nesta área da quinta que estiveram instalados os viveiros de plantas da EP, agora praticamente abandonados.
Estradas de Portugal deixa edifício de 1,5 milhões dois anos depois da inauguração
Ao fim de décadas de uso, a antiga JAE vai ter de deixar a quinta de Queluz onde construiu a sede da direcção de Estradas de Lisboa e que agora se descobriu que não lhe pertence
A Estradas de Portugal (EP), empresa de capitais públicos que herdou as funções da antiga Junta Autónoma de Estradas, vai abandonar durante este mês um edifício que inaugurou em Janeiro de 2007, em Queluz, para servir de sede à Direcção de Estradas do Distrito de Lisboa. O imóvel, a cuja inauguração presidiu o actual secretário de Estado das Obras Públicas, Paulo Campos, custou perto de 1,5 milhões de euros e foi construído para receber os serviços que até aí funcionavam num velho prédio da Rua Maria da Fonte, em Lisboa.
Instalada desde os anos 40 do século passado na Quinta Nova - uma extensa propriedade com dezenas de hectares, situada entre o IC19, o quartel do Exército e o Palácio de Queluz -, a JAE começou por ter aí os seus viveiros de plantas e uma dezena de habitações para o pessoal. Na década de 90, com o recurso crescente a empresas de jardinagem para tratar a envolvente das estradas de que a JAE era responsável, os viveiros foram progressivamente desactivados e o espaço, integralmente murado, ficou a servir - quase em exclusivo - para alojar algumas famílias de antigos funcionários.
Em 2004, para surpresa de moradores e autarcas de Queluz, que há muito reivindicavam a abertura da quinta à população, foi tomada a decisão de ali instalar a Direcção de Estradas de Lisboa. O concurso público para a construção das novas instalações foi lançado nesse ano, com um preço-base de um milhão e oitenta e sete mil euros.
O moderno edifício a construir devia ter dois pisos com um enorme pé-direito, encostados a um aqueduto pertencente ao sistema de rega da antiga quinta, e um total de 2100 metros quadrados de pavimento para acolher 62 funcionários. A adjudicação foi feita à empresa Soenvil e a obra, que a EP disse ontem ao PÚBLICO ter custado exactamente 1.472.173 euros, acabou por ser inaugurada por Paulo Campos e por António Laranjo, então presidente da empresa, em 7 de Janeiro de 2007.
Quinta poderá ser vendida
Por essa altura a quinta foi aberta ao público, passando a ser frequentada diariamente por numerosos desportistas e visitantes. Na semana passada, após a retirada do local da empresa responsável pela segurança, os frequentadores ficaram a saber aquilo que os funcionários e moradores já sabiam: a direcção de estradas ia sair dali para a sede da EP, em Almada, e os poucos residentes que ainda lá se mantinham teriam de procurar nova casa.
A administração da EP explicou que a transferência dos serviços tem como objectivo "a concentração de estruturas orgânicas dispersas junto da sede da empresa, obtendo ganhos de produtividade". Outros dos motivos da decisão, acrescentou, prendem-se com o "desenvolvimento da cultura de empresa", "maior facilidade logística e redução de custos actualmente duplicados".
Quanto ao destino do novo edifício, a empresa diz que "a decisão compete à Direcção-Geral do Tesouro e Finanças (DGTF), entidade responsável pelo espaço e proprietária do mesmo". A EP acrescenta que está a fazer diligências junto da DGTF "no sentido de obter eventual compensação" pelo investimento feito no imóvel, concluindo-se que só recentemente teve conhecimento de que a propriedade não era sua. Embora dependente daquela direcção-
-geral, a quinta poderá estar afecta ao Ministério da Defesa, que poderá ter exigido a sua desocupação. O PÚBLICO tentou ontem confirmar esta informação, mas isso não foi possível.
O decreto-lei que em Novembro passado (219/2008) inventariou o universo das propriedades militares "disponibilizadas para rentabilização", nomeadamente por venda ou arrendamento, inclui, porém, uma parte do Prédio Militar 23/Sintra, que corresponde à "Quinta Nova de Queluz". A ser assim, a EP terá sido obrigada a deixar o local e este poderá vir a ser alienado pelo Estado.
José António Cerejo, In Público 04.03.2009
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